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Entrevista do Sr Yashwant Sinha,Ministro das Relações Exteriores da Índia, para o Jornal Valor Econômico



Pela primeira vez na história do relacionamento diplomático entre Brasil e Índia, um ministro das Relações Exteriores indiano visita o país. Yashwant Sinha chega hoje a Brasília para se reunir com o chanceler brasileiro Celso Amorim e para uma audiência com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quem convidará oficialmente para visitar a Índia no início de 2004.

A viagem inédita não se dá por acaso. O governo da Índia decidiu estreitar relações econômicas, culturais e comerciais com a América Latina e, especificamente, com o Brasil. "Estou trazendo uma mensagem forte de amizade e boa-vontade de meu governo", disse Sinha em entrevista ao Valor.

O status do visitante já dá uma idéia da importância que a Índia atribui ao novo relacionamento com o Brasil. Yashwant Sinha, um cientista político de 65 anos, tem grande prestígio na Índia e no Partido Janata, atualmente no governo. Ele já foi senador e deputado, mas ganhou admiração no país depois de sua passagem pelo Ministério da Fazenda, de 1998 a 2002. Nesse período, o PIB indiano nunca cresceu menos de 5% ao ano e as reservas monetárias alcançaram US$ 80 bilhões (2002), o que permitiu à Índia atravessar sem maiores problemas a recente crise de liquidez internacional.

Na reunião de hoje em Brasília, Sinha espera concluir as negociações para a assinatura de um acordo de comércio preferencial entre a Índia e o Mercosul, que vem sendo discutido há alguns meses. Quer também resolver questões burocráticas, como a da expedição de vistos de longo prazo para empresários e a das taxas antidumping aplicadas pelo Brasil sobre produtos de exportação da Índia.

O comércio entre os dois países cresceu muito nos últimos anos e atingiu US$ 1,22 bilhão nos dois sentidos em 2002, com superávit de US$ 80 milhões para o Brasil. No primeiro quadrimestre deste ano, o intercâmbio somou US$ 410 milhões. Mas Sinha acha que esses valores ainda são baixos e quer resolver problemas que impedem o crescimento ainda mais rápido. Há questões logística, como a falta de rotas aéreas e marítimas diretas entre os dois países. Mas também outros entraves. Sinha espera, por exemplo, conseguir acabar com barreiras fitossanitárias que impedem a Índia de exportar trigo e outros produtos agrícolas ao Brasil.

O ministro indiano e o chanceler Celso Amorim participarão hoje, em Brasília, de uma reunião com a ministra das Relações Exteriores da África do Sul, Nkosazana Zuma. Será a primeira discussão trilateral para a promoção da cooperação Sul-Sul. Sinha também decidiu chamar todos os embaixadores indianos da América do Sul para uma reunião no Rio, dia 8, na qual pretende passar a nova orientação diplomática de seu governo para o continente.

Um grande obstáculo ao comércio bilateral tem sido a volatilidade cambial no Brasil, com a súbita desvalorização do real.

Um dos problemas mais embaraçosos para a diplomacia da Índia é a sua desavença com o Paquistão. Os dois países vizinhos têm arsenais nucleares e vivem em pé de guerra. Na entrevista ao Valor, Yashwant Sinha disse que a Índia não tem nenhum desejo de ameaçar o Paquistão, nem de viver sob risco de uma guerra nuclear e tem uma doutrina: "Não ser a primeira a usar (armas atômicas)". Ele lembrou que os indianos têm repetidamente estendido a mão em sinal de amizade ao Paquistão, mas observou que nenhum país pode ignorar as ameaças a sua segurança. "A Índia não tem alternativa senão enfrentar adequadamente os desafios à sua segurança colocados pelo terrorismo transnacional patrocinado pelo Paquistão."

Valor: Qual é o objetivo de sua visita ao Brasil?

Yashwant Sinha: As relações bilaterais entre Índia e Brasil fizeram progressos notáveis nos últimos cinco anos. Cooperamos amplamente em fóruns multilaterais, inclusive na ONU e na OMC. No front bilateral, nosso comércio superou a marca de US$ 1,2 bilhão, no ano passado, e nossas áreas de cooperação tecnológica vão de produtos farmacêuticos a informática, espaço e energia. Embora tenha havido muitas visitas de alto nível entre Brasil e Índia nesse período, inclusive a do presidente Fernando Henrique Cardoso à Índia em janeiro de 1996 e do presidente K.R. Narayanan ao Brasil, em maio de 1998, a minha é a primeira visita de um ministro das Relações Exteriores da Índia ao Brasil.

Pretendo aproveitar minha estada no Brasil para travar amplas discussões com o ministro das Relações Exteriores do governo brasileiro, Celso Amorim, sobre toda a gama de nossas relações bilaterais. Juntamente com a ministra das Relações Exteriores da África do Sul, Nkosazana Zuma, faremos a primeira discussão trilateral para a promoção da cooperação Sul-Sul. Estou trazendo uma mensagem forte de amizade e boa-vontade de meu governo. O presidente Lula e o meu primeiro-ministro da Índia já fizeram boas discussões à margem da Cúpula de Evian em 2 de junho. Estou trazendo também uma carta-convite de nosso presidente para seu o presidente Lula visitar a Índia no começo do próximo ano.

Valor: O comércio entre Brasil e Índia cresceu rapidamente nos últimos anos, mas ainda é pequeno quando se leva em conta o potencial dos dois países. Quais são os obstáculos que ainda impedem a aceleração do comércio bilateral?

Sinha: É motivo de grande satisfação que o comércio no ano de 2002, conforme estatísticas brasileiras, tenha atingido o nível sem precedente de US$ 1,22 bilhão. Estou informado de que o ritmo está sendo mantido e, de janeiro a abril de 2003, o comércio bilateral foi da ordem de US$ 410 milhões, em bases bastante equilibradas.

É correto dizer que há um potencial muito maior para aumentar o comércio, e tanto Índia como Brasil estão trabalhando ativamente para finalizar um Acordo de Comércio Preferencial entre a Índia e o Mercosul, que já vem sendo discutido há alguns meses, e que confiamos que será concluído em breve.

Há muitas questões burocráticas a resolver, inclusive a de vistos de longo prazo para empresários e taxas antidumping sobre produtos de interesse indiano, como sacos de juta, pneus de bicicletas etc. Estamos mantendo conversações com o governo brasileiro para a eliminação dessas barreiras e qualquer outra que possa surgir.

Também precisamos enfrentar questões logísticas e afins como a falta de rotas aéreas e marítimas diretas - nenhuma companhia aérea brasileira ou indiana interliga nossos países - e a harmonização de nossas leis relacionadas a questões fitossanitárias que permitirão à Índia exportar trigo e outros produtos agrícolas de interesse brasileiro.

A Índia não tem intenção de ameaçar o Paquistão, mas nenhum país pode ignorar as ameaças a sua segurança.

Um grande obstáculo a nosso comércio bilateral tem sido a volatilidade cambial, tal como a manifestada pela súbita desvalorização do real no ano passado, que inibiram as importações brasileiras de produtos indianos. Estamos tentando superar problemas de crédito às importações desenvolvendo linhas de crédito para bancos brasileiros por meio do nosso Eximbank. Estamos confiantes na superação de todos os obstáculos.

Valor: A Índia tem mais de 1 bilhão de habitantes. Muitos avanços foram feitos no sentido de alimentar toda a sua enorme população, mas ainda existem problemas nessa área. A Índia apóia a proposta do presidente Lula de criação de um plano mundial para combate à fome nos países pobres?

Sinha: A iniciativa do Fome Zero do presidente Lula é admirável e integralmente apoiada pela Índia. Nós alcançamos a auto-suficiência na produção de alimentos. Aliás, a Índia é o maior produtor mundial de leite, e hoje temos um superávit de grãos alimentícios que podemos exportar. O governo da Índia implementou, com êxito, programas de troca de alimentos por trabalho, e ficaríamos felizes de partilhar nossa experiência no combate à fome com o Brasil e com outros países.

Valor: A indústria indiana de software exporta cerca de US$ 8 bilhões por ano, enquanto a brasileira exporta menos de US$ 500 milhões. Que tipo de colaboração pode haver nesse setor?

Sinha: Índia e Brasil têm um respeito mútuo pelas capacidades respectivas em software. Aliás, mesmo antes de nossos dois governos terem assinado um memorando de entendimento sobre a colaboração em serviços de tecnologia da informação, em novembro de 2000, e estabelecer uma força-tarefa indiano-brasileira para essa área logo em seguida, companhias indianas vinham colaborando ativamente com suas equivalentes brasileiras.

Hoje, companhias indianas como TCS, Aptech, ZILS, Prologix e muitas outras estão presentes no Brasil através de parcerias e outras iniciativas, enquanto companhias brasileiras como a Compsys vêm atuando na Índia. Delegações brasileiras de software têm visitado a Índia e os dois lados alcançaram um nível de colaboração admirável para dois países do mundo em desenvolvimento que poderá alavancar seus talentos nesta área e criar oportunidades de geração de emprego em alta tecnologia.

Valor: A Índia tem uma dinâmica indústria farmacêutica e planeja uma expansão acelerada nesse setor nos próximos anos. Existe possibilidade concreta de novas parcerias nessa área?

Sinha: Já existe uma parceria ativa entre Índia e Brasil no setor farmacêutico. Estatísticas recentes indicam que a Índia é o maior investidor no setor farmacêutico brasileiro de genéricos depois das companhias locais, com participação de 10,2%. Companhias indianas como Ranbaxy, Strides Cellopharm, Torrent, Core/Claris e Aurobindo Pharma já estão presentes por meio de joint ventures ou subsidiárias no Brasil, enquanto uma dezena de outras companhias fornece drogas a granel e fórmulas ao Brasil, a preços altamente competitivos. Esperamos ver uma maior intensificação dessa parceria que possa reduzir os custos de medicamentos muito necessários no Brasil e permitir que a indústria brasileira se beneficie da expertise indiana. Contamos com a assistência de agências reguladoras e do governo brasileiro a companhias indianas para esse fim.

Valor: É possível atrair capital estrangeiro para a Índia e juntar-se ao mundo desenvolvido apesar da constante ameaça de guerra nuclear com o Paquistão?

Sinha: A Índia não tem nenhuma intenção de ameaçar o Paquistão, nem de viver sob a ameaça de uma guerra nuclear. Devo enfatizar também o fato de que a Índia tem uma doutrina nuclear " de não ser a primeira a usar " . Vimos tentando repetidamente estender a mão em sinal de amizade ao Paquistão. Foi o primeiro-ministro indiano que tomou a iniciativa de ir a Lahore e assinar a Declaração de Lahore, de 19 de fevereiro de 1999, com os líderes do Paquistão. Um componente importante das medidas acertadas entre Índia e Paquistão, naquela ocasião, foi definir medidas para a construção da confiança no campo nuclear.

Posteriormente, a Índia convidou o presidente do Paquistão para uma reunião de cúpula em Agra, em julho de 2001, e agora o primeiro-ministro indiano estendeu mais uma vez a mão em sinal de amizade. Sempre tentamos normalizar as relações com o Paquistão e estabelecer uma amizade duradoura.

Permita-me acrescentar, ao mesmo tempo, que nenhum país pode ignorar as ameaças a sua segurança. A Índia não tem alternativa senão enfrentar adequadamente os desafios à sua segurança colocados pelo terrorismo transnacional patrocinado pelo Paquistão.

No que trata do investimento, a Índia vem recebendo aportes contínuos cada vez maiores. Companhias indianas também estão investindo fortemente no exterior.

Valor: Quão perto Índia e Paquistão estiveram de uma guerra total nos últimos anos e quão perto estão hoje da paz?

Sinha: Como já mencionei, a Índia acredita numa relação de paz e cooperação com o Paquistão. Ao mesmo tempo, todas as nossas opções estavam abertas para lidar com o desafio do terrorismo transnacional.

Nosso primeiro-ministro tomou agora uma iniciativa significativa. O progresso naturalmente dependerá da resposta do Paquistão, particularmente a ação que ele fizer para desmantelar a infra-estrutura do terrorismo naquele país. É preciso reconhecer que, no mundo de hoje, não se pode aceitar nenhuma justificativa para o terrorismo e a norma internacional é que ele precisa ser erradicado onde quer que existir.

Muitos países e grupos de países vêm conclamando o Paquistão a deixar de servir de plataforma ao terrorismo internacional.

Valor: O Brasil tem conseguido bons resultados no combate à aids e a Índia está entre os países com alto número de casos da doença. O senhor espera alguma colaboração entre os dois países nesse campo?

Sinha: Companhias indianas já vêm fornecendo vários ingredientes do coquetel antiaids à indústria e ao governo brasileiros com preços altamente competitivos. Essa é uma questão de que pretendo tratar quando realizar uma discussão trilateral com meus colegas brasileiro e sul-africano no Brasil, visto que nossos três países podem se unir para enfrentar essa ameaça. Quanto a isso, a Índia apóia integralmente a iniciativa do Brasil na OMC para emendar as leis sobre propriedade intelectual e patentes, em particular para permitir que países em desenvolvimento possam reduzir os custos de medicamentos para a Aids e outras doenças epidêmicas.

Valor: Brasil e Índia estão consolidando suas posições de potências regionais. É possível aumentar esse a força se houver uma voz mais unificada e ações conjuntas no cenário mundial?

Sinha: Brasil e Índia já têm um histórico bastante bom de cooperação em vários fóruns multilaterais. Vimos ampliando o apoio recíproco a candidatos em eleições de organismos internacionais importantes. Cooperamos amplamente também em questões que afetam os países em desenvolvimento, como meio ambiente, nova ordem econômica mundial, democratização do sistema da ONU - inclusive a ampliação do Conselho de Segurança etc.

Durante minha próxima reunião com o ministro Celso Amorim, novas áreas de cooperação serão identificadas e Brasil e Índia trabalharão juntos com países a eles afinados para garantir que nossas posições sobre problemas globais recebam a atenção que merecem.

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