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CONSULADO
GERAL DA ÍNDIA
São Paulo - Brasil |
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A viagem inédita não se dá por acaso. O governo da Índia decidiu estreitar relações econômicas, culturais e comerciais com a América Latina e, especificamente, com o Brasil. "Estou trazendo uma mensagem forte de amizade e boa-vontade de meu governo", disse Sinha em entrevista ao Valor. O status do visitante já dá uma idéia da importância que a Índia atribui ao novo relacionamento com o Brasil. Yashwant Sinha, um cientista político de 65 anos, tem grande prestígio na Índia e no Partido Janata, atualmente no governo. Ele já foi senador e deputado, mas ganhou admiração no país depois de sua passagem pelo Ministério da Fazenda, de 1998 a 2002. Nesse período, o PIB indiano nunca cresceu menos de 5% ao ano e as reservas monetárias alcançaram US$ 80 bilhões (2002), o que permitiu à Índia atravessar sem maiores problemas a recente crise de liquidez internacional. Na reunião de hoje em Brasília, Sinha espera concluir as negociações para a assinatura de um acordo de comércio preferencial entre a Índia e o Mercosul, que vem sendo discutido há alguns meses. Quer também resolver questões burocráticas, como a da expedição de vistos de longo prazo para empresários e a das taxas antidumping aplicadas pelo Brasil sobre produtos de exportação da Índia. O comércio entre os dois países cresceu muito nos últimos anos e atingiu US$ 1,22 bilhão nos dois sentidos em 2002, com superávit de US$ 80 milhões para o Brasil. No primeiro quadrimestre deste ano, o intercâmbio somou US$ 410 milhões. Mas Sinha acha que esses valores ainda são baixos e quer resolver problemas que impedem o crescimento ainda mais rápido. Há questões logística, como a falta de rotas aéreas e marítimas diretas entre os dois países. Mas também outros entraves. Sinha espera, por exemplo, conseguir acabar com barreiras fitossanitárias que impedem a Índia de exportar trigo e outros produtos agrícolas ao Brasil. O ministro indiano e o chanceler Celso Amorim participarão
hoje, em Brasília, de uma reunião com a ministra
das Relações Exteriores da África do Sul,
Nkosazana Zuma. Será a primeira discussão trilateral
para a promoção da cooperação Sul-Sul.
Sinha também decidiu chamar todos os embaixadores indianos
da América do Sul para uma reunião no Rio, dia 8,
na qual pretende passar a nova orientação diplomática
de seu governo para o continente. Valor: Qual é o objetivo de sua visita ao Brasil? Yashwant Sinha: As relações bilaterais entre Índia e Brasil fizeram progressos notáveis nos últimos cinco anos. Cooperamos amplamente em fóruns multilaterais, inclusive na ONU e na OMC. No front bilateral, nosso comércio superou a marca de US$ 1,2 bilhão, no ano passado, e nossas áreas de cooperação tecnológica vão de produtos farmacêuticos a informática, espaço e energia. Embora tenha havido muitas visitas de alto nível entre Brasil e Índia nesse período, inclusive a do presidente Fernando Henrique Cardoso à Índia em janeiro de 1996 e do presidente K.R. Narayanan ao Brasil, em maio de 1998, a minha é a primeira visita de um ministro das Relações Exteriores da Índia ao Brasil. Pretendo aproveitar minha estada no Brasil para travar amplas discussões com o ministro das Relações Exteriores do governo brasileiro, Celso Amorim, sobre toda a gama de nossas relações bilaterais. Juntamente com a ministra das Relações Exteriores da África do Sul, Nkosazana Zuma, faremos a primeira discussão trilateral para a promoção da cooperação Sul-Sul. Estou trazendo uma mensagem forte de amizade e boa-vontade de meu governo. O presidente Lula e o meu primeiro-ministro da Índia já fizeram boas discussões à margem da Cúpula de Evian em 2 de junho. Estou trazendo também uma carta-convite de nosso presidente para seu o presidente Lula visitar a Índia no começo do próximo ano. Valor: O comércio entre Brasil e Índia cresceu rapidamente nos últimos anos, mas ainda é pequeno quando se leva em conta o potencial dos dois países. Quais são os obstáculos que ainda impedem a aceleração do comércio bilateral? Sinha: É motivo de grande satisfação que o comércio no ano de 2002, conforme estatísticas brasileiras, tenha atingido o nível sem precedente de US$ 1,22 bilhão. Estou informado de que o ritmo está sendo mantido e, de janeiro a abril de 2003, o comércio bilateral foi da ordem de US$ 410 milhões, em bases bastante equilibradas. É correto dizer que há um potencial muito maior para aumentar o comércio, e tanto Índia como Brasil estão trabalhando ativamente para finalizar um Acordo de Comércio Preferencial entre a Índia e o Mercosul, que já vem sendo discutido há alguns meses, e que confiamos que será concluído em breve. Há muitas questões burocráticas a resolver, inclusive a de vistos de longo prazo para empresários e taxas antidumping sobre produtos de interesse indiano, como sacos de juta, pneus de bicicletas etc. Estamos mantendo conversações com o governo brasileiro para a eliminação dessas barreiras e qualquer outra que possa surgir. Também precisamos enfrentar questões logísticas
e afins como a falta de rotas aéreas e marítimas
diretas - nenhuma companhia aérea brasileira ou indiana
interliga nossos países - e a harmonização
de nossas leis relacionadas a questões fitossanitárias
que permitirão à Índia exportar trigo e outros
produtos agrícolas de interesse brasileiro. Valor: A Índia tem mais de 1 bilhão de habitantes. Muitos avanços foram feitos no sentido de alimentar toda a sua enorme população, mas ainda existem problemas nessa área. A Índia apóia a proposta do presidente Lula de criação de um plano mundial para combate à fome nos países pobres? Sinha: A iniciativa do Fome Zero do presidente Lula é admirável e integralmente apoiada pela Índia. Nós alcançamos a auto-suficiência na produção de alimentos. Aliás, a Índia é o maior produtor mundial de leite, e hoje temos um superávit de grãos alimentícios que podemos exportar. O governo da Índia implementou, com êxito, programas de troca de alimentos por trabalho, e ficaríamos felizes de partilhar nossa experiência no combate à fome com o Brasil e com outros países. Valor: A indústria indiana de software exporta cerca de US$ 8 bilhões por ano, enquanto a brasileira exporta menos de US$ 500 milhões. Que tipo de colaboração pode haver nesse setor? Sinha: Índia e Brasil têm um respeito mútuo pelas capacidades respectivas em software. Aliás, mesmo antes de nossos dois governos terem assinado um memorando de entendimento sobre a colaboração em serviços de tecnologia da informação, em novembro de 2000, e estabelecer uma força-tarefa indiano-brasileira para essa área logo em seguida, companhias indianas vinham colaborando ativamente com suas equivalentes brasileiras. Hoje, companhias indianas como TCS, Aptech, ZILS, Prologix e muitas outras estão presentes no Brasil através de parcerias e outras iniciativas, enquanto companhias brasileiras como a Compsys vêm atuando na Índia. Delegações brasileiras de software têm visitado a Índia e os dois lados alcançaram um nível de colaboração admirável para dois países do mundo em desenvolvimento que poderá alavancar seus talentos nesta área e criar oportunidades de geração de emprego em alta tecnologia. Valor: A Índia tem uma dinâmica indústria farmacêutica e planeja uma expansão acelerada nesse setor nos próximos anos. Existe possibilidade concreta de novas parcerias nessa área? Sinha: Já existe uma parceria ativa entre Índia e Brasil no setor farmacêutico. Estatísticas recentes indicam que a Índia é o maior investidor no setor farmacêutico brasileiro de genéricos depois das companhias locais, com participação de 10,2%. Companhias indianas como Ranbaxy, Strides Cellopharm, Torrent, Core/Claris e Aurobindo Pharma já estão presentes por meio de joint ventures ou subsidiárias no Brasil, enquanto uma dezena de outras companhias fornece drogas a granel e fórmulas ao Brasil, a preços altamente competitivos. Esperamos ver uma maior intensificação dessa parceria que possa reduzir os custos de medicamentos muito necessários no Brasil e permitir que a indústria brasileira se beneficie da expertise indiana. Contamos com a assistência de agências reguladoras e do governo brasileiro a companhias indianas para esse fim. Valor: É possível atrair capital estrangeiro para a Índia e juntar-se ao mundo desenvolvido apesar da constante ameaça de guerra nuclear com o Paquistão? Sinha: A Índia não tem nenhuma intenção de ameaçar o Paquistão, nem de viver sob a ameaça de uma guerra nuclear. Devo enfatizar também o fato de que a Índia tem uma doutrina nuclear " de não ser a primeira a usar " . Vimos tentando repetidamente estender a mão em sinal de amizade ao Paquistão. Foi o primeiro-ministro indiano que tomou a iniciativa de ir a Lahore e assinar a Declaração de Lahore, de 19 de fevereiro de 1999, com os líderes do Paquistão. Um componente importante das medidas acertadas entre Índia e Paquistão, naquela ocasião, foi definir medidas para a construção da confiança no campo nuclear. Posteriormente, a Índia convidou o presidente do Paquistão para uma reunião de cúpula em Agra, em julho de 2001, e agora o primeiro-ministro indiano estendeu mais uma vez a mão em sinal de amizade. Sempre tentamos normalizar as relações com o Paquistão e estabelecer uma amizade duradoura. Permita-me acrescentar, ao mesmo tempo, que nenhum país pode ignorar as ameaças a sua segurança. A Índia não tem alternativa senão enfrentar adequadamente os desafios à sua segurança colocados pelo terrorismo transnacional patrocinado pelo Paquistão. No que trata do investimento, a Índia vem recebendo aportes contínuos cada vez maiores. Companhias indianas também estão investindo fortemente no exterior. Valor: Quão perto Índia e Paquistão estiveram de uma guerra total nos últimos anos e quão perto estão hoje da paz? Sinha: Como já mencionei, a Índia acredita numa relação de paz e cooperação com o Paquistão. Ao mesmo tempo, todas as nossas opções estavam abertas para lidar com o desafio do terrorismo transnacional. Nosso primeiro-ministro tomou agora uma iniciativa significativa. O progresso naturalmente dependerá da resposta do Paquistão, particularmente a ação que ele fizer para desmantelar a infra-estrutura do terrorismo naquele país. É preciso reconhecer que, no mundo de hoje, não se pode aceitar nenhuma justificativa para o terrorismo e a norma internacional é que ele precisa ser erradicado onde quer que existir. Muitos países e grupos de países vêm conclamando o Paquistão a deixar de servir de plataforma ao terrorismo internacional. Valor: O Brasil tem conseguido bons resultados no combate à aids e a Índia está entre os países com alto número de casos da doença. O senhor espera alguma colaboração entre os dois países nesse campo? Sinha: Companhias indianas já vêm fornecendo vários ingredientes do coquetel antiaids à indústria e ao governo brasileiros com preços altamente competitivos. Essa é uma questão de que pretendo tratar quando realizar uma discussão trilateral com meus colegas brasileiro e sul-africano no Brasil, visto que nossos três países podem se unir para enfrentar essa ameaça. Quanto a isso, a Índia apóia integralmente a iniciativa do Brasil na OMC para emendar as leis sobre propriedade intelectual e patentes, em particular para permitir que países em desenvolvimento possam reduzir os custos de medicamentos para a Aids e outras doenças epidêmicas. Valor: Brasil e Índia estão consolidando suas posições de potências regionais. É possível aumentar esse a força se houver uma voz mais unificada e ações conjuntas no cenário mundial? Sinha: Brasil e Índia já têm um histórico bastante bom de cooperação em vários fóruns multilaterais. Vimos ampliando o apoio recíproco a candidatos em eleições de organismos internacionais importantes. Cooperamos amplamente também em questões que afetam os países em desenvolvimento, como meio ambiente, nova ordem econômica mundial, democratização do sistema da ONU - inclusive a ampliação do Conselho de Segurança etc. Durante minha próxima reunião com o ministro Celso Amorim, novas áreas de cooperação serão identificadas e Brasil e Índia trabalharão juntos com países a eles afinados para garantir que nossas posições sobre problemas globais recebam a atenção que merecem. |
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